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     Imprensa digital

José Machado Lopes, uma vida dedicada à cultura

 200 anos de experiência

     É arqueólogo, mas o seu currículo é, como alguém disse um dia, “um projecto de vida”, muito mais do que o somatório de experiências profissionais. Três anos de direito, três anos de conservatório- piano- três anos de história, mais dois de arqueologia, um curso de equitação, um de resineiro, uma especialidade de hipoterapia, tocador de cavaquinho, e uma vida dedicada à Cultura, concretamente à Casa Quinhentista da Pampilhosa. Para José Machado Lopes as experiências, muitas, são de “200 anos”, numa lição de vida que começou em casa dos pais, ambos professores, com as muitas pessoas, de diferentes sensibilidades e interesses, que a frequentavam.

    Depois de algumas glorias na arqueologia- descobriu o anfiteatro romano da Bobadela e um tabernáculo judaico no Sabugal-, é na Casa Quinhentista, museu que junta as vertentes do porco, cerâmica, do vidro, dos trajes, alfaias agrícolas de outros tempos, que vive, desde há 28 anos, a sua segunda- “será primeira?”-vida. Dedicada à Cultura, sempre a Cultura, área que, defende, “é o fulcro de qualquer economia”, “a melhor para se obterem dividendos”- “basta ir ao exemplo espanhol e ver a fonte de rendimento que é a Cultura”.

    Na Pampilhosa (conselho da Mealhada), faz o que sempre fez ao longo da vida: “Sou polivalente”, diz, mostrando a roupa marcada dos trabalhos de bricolage. Pinta, serra, martela, enceta contactos com as mais diversas associações mundiais, envia a revista “Pampilhosa, uma terra e um povo”, para a Biblioteca de Alexandria, troca experiências com pintores do Canadá, com os etnógrafos do Mediterrâneo. A actividade múltipla em que se envolve faz com que acumule ligações, numa relação de “respiração boca a boca”, numa espécie de espiral de conhecimentos que o faz “prisioneiro” de toda esta azáfama cultural. Mas é também uma actividade de reacção. Contra um mundo que está, cada vez mais, “dominado pelas máquinas”, que dispensam o espírito crítico que deveria ser característico dos jovens que receberão a herança da Pampilhosa- e do país. “Nós temos aqui uma dádiva e têm que ser os jovens a continuá-la”, sublinha, referindo que também cabe às autarquias, ao Estado e a toda a sociedade dar atenção à Cultura. “Nós aqui tivemos, em 2006, 6 mil visitantes. Somos uma associação de voluntariado, mas a dimensão do que aqui está reconstruído já exige um quadro profissional que dê resposta às solicitações que temos. Nós já não temos capacidade”, sublinha.  

O Polémico Dr. Costa Ferreira

         Dr. António Costa Ferreira, que voluntarioso, paladino acérrimo da Republica, veio a ser figura de proa a nível do distrito – governador civil, desempenhou funções de médico de partido da Câmara e, regenerador, em Junho de 1911.

        Podemos dizer mesmo que a guerra da Traulitânia o catapultou para a política. Se entrara como médico do partido na Câmara, tendo sido votado por escrutínio secreto e por unanimidade em 14/11/1903, substituindo Dr. Luís António Ribeiro Dias, desempenhou ainda que interinamente o cargo de administrador do concelho de 1917 e, depois da luta nas Barreiras de Águeda, foi feito deputado nas eleições realizadas em 10/7/1921 pela lista liberal democrática, juntamente com o D. Manuel Alegre, Barbosa de Magalhães, Egas Moniz e Dr. António Tavares Silva, tendo os monárquicos arrecadado 140 votos, em especial incidência em Bustos, contra 665 votos do Partido Liberal.

        Nomeado em Fevereiro de 1922 governador civil, tomou posse em 19 do mesmo mês. Embora natural de Águeda, a população oliveirense sentiu orgulho pela posição alcançada e preparou-lhe uma grande manifestação para a sua chegada a estação. Na frente, a União Filarmónica de Oliveira do Bairro, os corifeus do Partido Republicano Português, ao mesmo tempo que estalejaram muitos foguetes à frente da sua casa, situada sobre a curva da rua Cândido dos Reis.

        Todavia, o facto gerou alguma contestação, nomeadamente por parte do anterior, governador civil Lúcio Vidal. Se bem que a comissão politica municipal do partido em Oliveira do Bairro, se tenha colocado obviamente do seu lado, o director do “Farol da Liberdade” Augusto Simões da Costa, é que não estava pelos ajustes e colocou-se ao lado do Lúcio Vidal, desancando quem, em Maio de 1920, elogiava como uma “individualidade altamente cotada e de grande preponderância a dentro de regime actual”. A ele se devia a criação, então recente, da freguesia de Bustos que “de há muito era desejada pelos povos d’este lugar e das povoações inerentes da Quinta Nova, Coladas, Sobreiro, Azurveira, Barreira, Picada, Póvoa, Cabeço w Porto do Vouga” (FL, Maio de 1920).

        Como deputado, tinha obtido do governo três contos para a continuação das obras do Hospital da Misericórdia de Ílhavo e igual quantia para as obras dos Paços do Concelho de Vagos e advogava a construção de escolas primárias em Oliveira do Bairro e Oiã. Curiosamente, nessa notícia, o director do “Farol da Liberdade”, insistia junto de Costa Ferreira para a construção de uma linha férrea, ligando o concelho de Oliveira do Bairro com a vila de Mira.

        A oposição de Augusto Simões da Costa foi tão grande ao povo governador que veio a ser preso em Julho. Com ele também José Joaquim Simões de Louros, David Pedreiras e Manuel Gaitas, todos de Bustos, pela polícia de Aveiro, por ordem de Costa Ferreira. Depois de passarem pela cadeia da vila, de Oliveira do Bairro foram levados para a cadeia de Aveiro.

        Dr. António Costa Ferreira era efectivamente senhor de um temperamento algo explosivo. Nas eleições de 1919, ameaçou mesmo de morte António Tavares de Araújo Castro quando quis veros cadernos eleitorais e este Costa Ferreira, ele que tinha entretanto filiado no partido evolucionista ou Partido Liberal.

        A partir daqui, foi visível a queda de Dr. António Costa Ferreira. Doente em Abril de 1923, pediu dispensa da sua actividade clínica como médico municipal, tendo sido substituído pelo Dr. Alberto Tavares Ferreira de Castro.